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Modelos computacionais do PLD: NEWAVE, DECOMP e DESSEM

Aprenda com especialistas da CCEE e ONS os conceitos envolvendo os modelos NEWAVE, DECOMP e DESSEM que determinam o preço da energia no mercado livre.

20 min de leituraPublicado em 01 de junho de 2026Por UAT Energia

Por que entender como o PLD é calculado muda sua estratégia de contratação

O PLD (Preço de Liquidação das Diferenças) não é arbitrário. Ele é o resultado de modelos computacionais sofisticados que simulam a operação do sistema elétrico brasileiro semana a semana — considerando o nível dos reservatórios, a demanda prevista, o parque de geração disponível e os custos de cada usina.

Quem entende a lógica por trás desses modelos consegue:

  • Antecipar tendências de alta ou queda do PLD antes que se concretizem
  • Escolher o momento certo para fechar contratos de longo prazo
  • Entender por que o PLD do seu submercado se comporta diferente dos outros
  • Interpretar os cenários publicados pelo ONS e pela CCEE com mais precisão

Este curso explica os três modelos principais — NEWAVE, DECOMP e DESSEM — de forma progressiva, do conceito à aplicação prática.


1Módulo6 min

O que é o PLD e por que ele oscila tanto

O PLD na prática

O PLD é o preço usado pela CCEE para liquidar as diferenças entre o que foi contratado e o que foi efetivamente consumido ou gerado no mercado livre. Ele é calculado semanalmente pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) e homologado pela CCEE.

O PLD tem limites regulatórios definidos anualmente pela ANEEL:

  • PLD mínimo: garante um piso para a remuneração de geradores, mesmo em períodos de muita água e energia barata
  • PLD máximo: protege consumidores de preços proibitivos em períodos de crise hídrica severa
4 submercadosSE/CO · S · NE · N — cada um com seu PLD

Entre esses limites, o PLD pode variar enormemente. Em 2021, durante a pior crise hídrica em 91 anos, o PLD ficou no teto por meses seguidos. Em anos chuvosos, pode operar próximo ao piso por longos períodos.

Por que o PLD oscila tanto?

A resposta curta: porque o Brasil depende das chuvas para gerar energia.

Cerca de 60% da capacidade instalada de geração elétrica brasileira é hidráulica. Hidrelétricas são baratas para operar (custo variável quase zero), mas dependem da água disponível nos reservatórios. Quando os reservatórios estão cheios, despacha-se hidrelétrica e o custo marginal de operação é baixo — PLD baixo. Quando estão vazios, aciona-se termelétrica — cara, a gás, óleo ou carvão — e o custo marginal sobe. PLD alto.

Custo marginal de operação (CMO): é o custo de produzir mais uma unidade de energia no sistema, dada a situação atual dos reservatórios e da demanda. O PLD é calculado a partir do CMO — com limites regulatórios aplicados acima e abaixo. Entender o CMO é entender o PLD.

Os três patamares de carga

O PLD não é único dentro de uma semana — ele varia por patamar de carga:

| Patamar | Horário típico | Característica | |---|---|---| | Pesado (ponta) | 18h–21h dias úteis | Maior demanda simultânea — PLD mais alto | | Médio (intermediário) | Manhã e início de tarde | Demanda moderada | | Leve (fora ponta) | Madrugada, fins de semana | Menor demanda — PLD mais baixo |

A diferença entre o PLD pesado e o leve pode ser significativa, especialmente em períodos de estresse hídrico — o que torna a gestão do consumo por horário uma ferramenta real de redução de custo.

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O PLD é definido com base em:


2Módulo8 min

O sistema hidrotérmico e o custo marginal de operação

A lógica do despacho hidrotérmico

O problema central do planejamento energético brasileiro

O ONS enfrenta todo dia uma decisão complexa: quanto de água usar hoje nas hidrelétricas, sabendo que a água não usada hoje fica disponível para amanhã — mas que a chuva futura é incerta?

Usar muita água agora é barato no curto prazo, mas arrisca deixar os reservatórios vazios se as chuvas do próximo período forem fracas. Usar pouca água agora (guardar para o futuro) obriga a acionar termelétricas caras hoje.

Esse é o trade-off fundamental do sistema hidrotérmico — e é exatamente o que os modelos computacionais buscam otimizar.

O conceito de custo de déficit

Um elemento crítico nos modelos é o custo de déficit — o custo econômico estimado de um racionamento de energia. Esse valor (em R$/MWh) representa o dano que uma hora sem energia causaria à economia.

O custo de déficit é muito alto — na ordem de milhares de reais por MWh — porque o impacto econômico de um apagão é imenso: produção industrial parada, comércio fechado, infraestrutura comprometida.

Na otimização do despacho, os modelos comparam o custo de acionar uma termelétrica cara hoje com o custo esperado de déficit futuro se os reservatórios ficarem baixos. Esse custo futuro esperado é chamado de Custo Futuro ou Valor da Água.

O valor da água: a água armazenada nos reservatórios tem um "valor de oportunidade" — ela pode gerar energia agora (a custo zero) ou ser guardada para gerar quando as termelétricas seriam ainda mais caras. Os modelos calculam esse valor dinamicamente, a cada rodada de otimização. É daí que vem o CMO — e, consequentemente, o PLD.

A função de custo futuro (FCF)

O coração matemático dos modelos é a Função de Custo Futuro (FCF) — uma representação da relação entre o nível dos reservatórios no futuro e o custo esperado de operação do sistema a partir dali.

A FCF é calculada de trás para frente no tempo (processo chamado de programação dinâmica estocástica dual): começando de um horizonte futuro com custo conhecido, o modelo trabalha para o presente, calculando a cada passo qual a decisão ótima de despacho.

Esse processo é iterativo e computacionalmente intenso — e é por isso que existem três modelos diferentes, cada um otimizado para um horizonte de tempo específico.

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No contexto do despacho hidrotérmico, 'valor da água' se refere a:


3Módulo8 min

NEWAVE: o planejamento de longo prazo

O que é o NEWAVE e para que serve

O NEWAVE é o modelo de planejamento energético de longo prazo do sistema elétrico brasileiro. Desenvolvido pelo CEPEL (Centro de Pesquisas de Energia Elétrica) e operado pelo ONS, ele cobre um horizonte de 5 anos dividido em etapas mensais.

O que o NEWAVE calcula

O NEWAVE responde à pergunta: qual é a política ótima de operação do sistema hidrotérmico para os próximos 5 anos, considerando a incerteza nas afluências futuras?

Para isso, ele:

  1. Modela o sistema hidrelétrico brasileiro como reservatórios equivalentes de energia (REE) — um por subsistema — em vez de modelar cada usina individualmente. Isso reduz enormemente a complexidade computacional.

  2. Gera mil cenários de afluência (vazão futura dos rios) usando séries históricas de 1931 até o presente, com um modelo estatístico chamado PAR(p) (Periodic AutoRegressive model).

  3. Para cada cenário e cada mês do horizonte de 5 anos, calcula o despacho ótimo — quanto de hidrelétrica e quanto de termelétrica usar.

  4. Ao final, produz a Função de Custo Futuro (FCF) que será usada como condição de contorno pelo modelo de médio prazo (DECOMP).

Por que usar reservatórios equivalentes e não usinas individuais? O Brasil tem centenas de usinas hidrelétricas, muitas em cascata (uma afeta a outra). Modelar cada uma individualmente por 5 anos com mil cenários seria computacionalmente inviável. O NEWAVE agrega o sistema em poucos reservatórios equivalentes — perdendo algum detalhe, mas tornando o cálculo viável em tempo hábil.

A saída do NEWAVE: o CMO de longo prazo

O NEWAVE produz o Custo Marginal de Operação para cada submercado, cada mês e cada cenário de afluência. A média ponderada desses CMOs — com os limites regulatórios da ANEEL aplicados — dá origem ao PLD de referência para o planejamento de longo prazo.

Essa saída é publicada pelo ONS e acompanhada de perto por comercializadoras e traders para antecipar tendências de preço.

Limitações do NEWAVE

Por usar reservatórios equivalentes e etapas mensais, o NEWAVE não captura:

  • Variações dentro do mês (sazonalidade semanal ou diária)
  • Comportamento individual de usinas específicas
  • Restrições de transmissão detalhadas

Essas limitações são o que justifica os modelos de horizonte mais curto — DECOMP e DESSEM.

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O NEWAVE modela o sistema hidrelétrico usando 'reservatórios equivalentes de energia' porque:


4Módulo8 min

DECOMP e DESSEM: do médio ao curtíssimo prazo

DECOMP — o modelo de médio prazo

Horizonte e propósito

O DECOMP (Modelo de Planejamento da Operação de Sistemas Hidrotérmicos de Curto Prazo) cobre um horizonte de 12 meses, com a primeira etapa desagregada em semanas e as demais em meses.

Enquanto o NEWAVE trabalha com reservatórios equivalentes e etapas mensais, o DECOMP representa as usinas individualmente e com etapas semanais na fase mais próxima — o que permite capturar detalhes operativos que o NEWAVE não consegue.

O que o DECOMP acrescenta

Representação individual das usinas: cada usina hidrelétrica relevante é modelada com seus próprios parâmetros — capacidade, restrições de vazão, cota do reservatório, curva cota-volume-área.

Restrições de transmissão: o DECOMP incorpora as principais restrições da rede de transmissão, refletindo os intercâmbios possíveis entre subsistemas.

Condição de contorno do NEWAVE: o DECOMP usa a Função de Custo Futuro calculada pelo NEWAVE como condição de contorno para o horizonte além de 12 meses — garantindo consistência entre os dois modelos.

Cálculo do PLD semanal: é o DECOMP que gera o CMO semanal por submercado e patamar de carga, que após aplicação dos limites regulatórios se torna o PLD publicado semanalmente pela CCEE.

O PLD que aparece na sua liquidação vem do DECOMP. O NEWAVE orienta o planejamento de longo prazo; o DECOMP é quem determina o preço que aparece no seu relatório de liquidação mensal. Entender o DECOMP é entender diretamente o custo da sua exposição ao spot.

Quando o DECOMP roda

O DECOMP é rodado semanalmente pelo ONS. A cada segunda-feira (em geral), uma nova rodada é publicada com o PLD para a semana seguinte. Agentes do mercado acompanham de perto essas publicações.

DESSEM — o curtíssimo prazo

Horizonte e propósito

O DESSEM (Modelo de Despacho Hidrotérmico para o Curto Prazo) é o modelo de curtíssimo prazo — cobre apenas os próximos dias, com etapas horárias.

Enquanto o DECOMP trabalha em semanas, o DESSEM resolve o despacho hora a hora, incorporando:

  • Restrições operativas horárias de cada usina
  • Variações de demanda ao longo do dia
  • Restrições elétricas da rede em tempo real
  • Programação das usinas termelétricas (tempo de partida, rampa de carga)

Para que o DESSEM é usado

O DESSEM não calcula o PLD diretamente — esse papel é do DECOMP. O DESSEM é usado pelo ONS para a programação diária da operação do sistema: qual usina ligar em cada hora, qual carga de geração programar, quais intercâmbios realizar.

Indiretamente, o DESSEM influencia o PLD porque a operação real do sistema alimenta as próximas rodadas do DECOMP — se a operação real divergir do planejado pelo DECOMP, o modelo seguinte será calibrado com essa informação.

A cadeia dos três modelos

NEWAVE (5 anos, mensal)
    ↓ Fornece Função de Custo Futuro
DECOMP (12 meses, semanal na 1ª etapa)
    ↓ Gera PLD semanal por submercado e patamar
DESSEM (dias, horário)
    ↓ Programa operação real hora a hora
Operação real → retroalimenta próxima rodada do DECOMP
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Qual dos três modelos é responsável por gerar o PLD semanal publicado pela CCEE?


5Módulo10 min

Como usar os modelos na sua estratégia de contratação

Da teoria à decisão: lendo os sinais do mercado

Os indicadores que os modelos publicam

O ONS e a CCEE publicam regularmente informações derivadas dos modelos que qualquer agente pode consultar:

Nível dos reservatórios (EAR — Energia Armazenada nos Reservatórios): publicado semanalmente pelo ONS. É o termômetro mais imediato do risco hídrico. EAR abaixo de 40% no submercado SE/CO historicamente antecede alta de PLD.

Previsão de afluência: o ONS publica previsões de vazão para os principais rios. Afluências abaixo da média histórica por 4–6 semanas consecutivas são sinal de alerta para quem tem exposição ao spot.

PLD forward (curva a termo): comercializadoras e traders publicam curvas de PLD esperado para os próximos meses com base nas rodadas do NEWAVE/DECOMP. Essas curvas não são publicações oficiais do ONS — são interpretações de mercado — mas refletem o consenso sobre onde o PLD deve ir.

Deck de usinas termelétricas: o ONS publica quais termelétricas estão despachadas e a que custo. Quando usinas a óleo diesel (as mais caras) são acionadas, é sinal de que o sistema está sob pressão.

Quando contratar energia — e a que preço

O timing de contratação é uma das decisões mais importantes para gestores de energia. Os modelos ajudam a calibrar esse timing:

Reservatórios cheios + La Niña (previsão de chuvas acima da média): PLD tende a cair nos próximos meses. Se você tem contratos vencendo, pode esperar um pouco antes de renovar — ou negociar preços mais baixos com base nessa expectativa.

Reservatórios baixos + El Niño (previsão de seca): PLD tende a subir. Esse é o momento de travar contratos de longo prazo com preço fixo, mesmo que o preço atual pareça alto. A alternativa — exposição ao spot num cenário de crise hídrica — pode ser muito mais cara.

PLD no teto por mais de 3 semanas consecutivas: historicamente, esse padrão antecede intervenção regulatória (como o racionamento de 2001 e a crise de 2021). Agentes com contratos insuficientes nesse cenário pagam preços extremos.

Não existe timing perfeito. Nenhum modelo consegue prever com precisão o comportamento das chuvas e do PLD com meses de antecedência — o próprio NEWAVE trabalha com mil cenários justamente porque a incerteza é inerente. A estratégia não é acertar o momento exato, mas estruturar a contratação de forma a limitar a exposição ao spot a um nível de risco aceitável para o seu negócio.

Estratégias de contratação por perfil de risco

Perfil conservador (prioridade: previsibilidade de custo)

  • Contratos de preço fixo (flat) para 80–100% do consumo
  • Horizonte de 2–3 anos
  • Aceita pagar um prêmio de segurança sobre o PLD esperado
  • Indicado para: empresas com margem apertada, orçamento anual fixo, baixa tolerância a variação de custo

Perfil moderado (equilíbrio entre previsibilidade e oportunismo)

  • 60–70% em contratos fixos de médio prazo (1–2 anos)
  • 20–30% em contratos de curto prazo indexados ao PLD, renovados conforme o cenário hídrico
  • Requer monitoramento ativo das publicações do ONS
  • Indicado para: empresas com equipe de gestão de energia ou assessoria especializada

Perfil arrojado (aceita exposição ao spot em troca de menor custo esperado)

  • Parcela relevante da energia sem contrato fixo, liquidada ao PLD
  • Exige capacidade financeira para absorver picos de custo em anos secos
  • Potencialmente muito barato em anos chuvosos, muito caro em anos secos
  • Indicado para: grandes consumidores com equipe de trading, reservas financeiras e horizonte de longo prazo para compensar os anos ruins

Como acompanhar os modelos sem ser especialista

Você não precisa rodar o NEWAVE para usar seus resultados. Algumas fontes práticas de acompanhamento:

Site do ONS (ons.org.br): seção "Relatórios" → "Acompanhamento da operação do SIN" — publicações semanais com EAR, afluências e despacho de termelétricas.

CCEE InfoMercado (ccee.org.br): publicação mensal com dados de contratação, PLD realizado e tendências de mercado.

Boletins de comercializadoras e consultorias: empresas como a Thymos Energia, Newave Consultoria e outras publicam boletins mensais com análise dos cenários hídricos e curvas de PLD forward. Muitas são gratuitas.

Associações do setor: ABRACEEL e ABRACE publicam notas técnicas sobre cenários de mercado e impactos regulatórios com frequência.

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Um gestor de energia observa que o nível dos reservatórios do submercado SE/CO caiu para 35% e o ONS acionou usinas termelétricas a óleo diesel. Qual é a estratégia de contratação mais prudente nesse cenário?


Resumo do curso

Você percorreu a cadeia completa de modelos computacionais que determinam o PLD:

  • Módulo 1: o PLD como reflexo do custo marginal de operação — por que ele oscila e como os patamares de carga afetam o preço
  • Módulo 2: a lógica do despacho hidrotérmico, o valor da água e a Função de Custo Futuro
  • Módulo 3: o NEWAVE — planejamento de 5 anos com mil cenários de afluência e reservatórios equivalentes
  • Módulo 4: o DECOMP (gerador do PLD semanal) e o DESSEM (programação horária da operação) — e como os três modelos se encadeiam
  • Módulo 5: como usar os sinais publicados pelo ONS e CCEE para calibrar sua estratégia de contratação

Parabéns — você concluiu a trilha de Regulação e Tarifas da UAT Academy. Você agora tem o arcabouço técnico para entender, monitorar e agir sobre os principais fatores que determinam o custo de energia da sua empresa no mercado livre.

Aplique esse conhecimento na sua estratégia de energia

A plataforma UAT Energia reúne as ferramentas, os dados e os parceiros para você operar no mercado livre com mais inteligência — do diagnóstico à gestão contínua.

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